quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Homicídio

“Foi o que eu disse”, replicava o delegado do 46º Distrito Policial. A mãe, no outro lado do corredor, chorava o silêncio do mundo, em seu desespero de Maria.


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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Revoada

Meu filho está doente Pastor, muito estranho, não olha mais na minha cara, discute comigo, e se briga com ele, grita e logo chora, como uma criança, o menino. O meu filho Pastor, aquele tão entregue às coisas de Deus. Esses dias nem dormiu em casa, não tem hora pra chegar, deu de lavar as cuecas no chuveiro, igual fazia o pai, de uma hora pra outra, não me deixa mais chegar perto do armário dele, qualquer dia enlouquece e sai de casa. Um cabelo estranho, só metade pintado, assim na frente; eu não sei pastor, eu não sei, esse menino. Cada roupa, aonde ele arruma? Se fuço nas coisas dele... achei três camisinha, do Demônio, Pastor, camisinha vermelha, eu tentei enrolar de volta, mas ele brigou comigo, só voltou no outro dia. Eu te disse que ele dorme fora de casa? De menor pastor, deve de tá imitando o pai, aquele cria de cão, safado... não sei o que faço, fico pedindo a Deus que faça alguma coisa por mim. Deus olhando isso, Pastor! Os amigos dele, tudo gente esquisita igual, e os tios fazendo piada o dia inteiro, coisa mais triste chamar o menino assim. Fumar, sei que não fuma, me preocupo que também não bebe, nem faz nada com os primos, os meninos da família. Não são gente boa, não são, cambada de vagabundo , mas estão perto da gente, e ele Pastor, cada vez mais distante. O pai, pobre coitado, disse que queria aprender a voar... Se meu filho um dia voar Pastor, quero que vá para perto do nosso senhor Jesus Cristo.

Às vezes me dá um medo.


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sábado, 12 de setembro de 2009

Leia-se

O silêncio não fere ninguém, a buzina é quem fere. Andou na contramão por entre os carros, parou em pé atrapalhando o tráfego. Estardalhaços de vidro e borracha no chão feriram José.

Deixou Iracema, que já não cala o retrato perdido para sempre na memória escassa das citações.

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Terminal Lapa - Vila Mariana

Viu o sorriso em meu rosto o menino, e como que carente achegou-se, olhou-me, sorriu. Ainda era todo espera o ponto de ônibus. A moça, bastante jovem, não mais que uma adolescente que por um acaso tivera a sorte de ser mãe antes de ser mulher. A criança, pequena, loira, falava coisas tolas querendo chamar minha atenção.

– Mãe.

As frases incompreensíveis do rostinho branco sobre os ombros morenos diziam-me a história de um romance que eu jamais escreveria, mas cuja trama fascinou-me, de sobressalto, fui todo folhetim.

Dois jovens sem experiencia alguma, duas famílias, a moça e seu pai de bigodão autoritário e clássico. Todos estes elementos combinados. Não o verbo feito carne na figura miúda do garoto, o verbo em minhas retinas, e apenas nelas, com direito a fim trágico e tudo.

Não! Nada de morte, meus amigos, não teremos hoje o encontro comum de todos os homens, aquela moça estava ali, em toda sua beleza de agora mulher. Morria apenas o tempo. Ela em seus dezenove anos, mais ou menos, e a criança em seu colo certamente viviam plenitude semelhante a de minhas entranhas, - estranhei - a vastidão da moça e sua cria, toda paisagem que aos poucos transmutava-se, eu era Quixote.

Cavaleiro andante sem cavalo, ela sem tranças, ele indiferente. Outras pessoas, no outro lado da avenida, passavam. Nunca tão distantes foram as margens da Sumaré. Os carros que vinham, corredeiras.

– Mãe.

Num momento aquelas palavras fizeram-se enigma. É preciso fixar os olhos nos objetos e ver o que eles na verdade são, despertamos em outro ponto da vida nossa alma e vermos pela segunda vez o que não vimos ao primeiro encontro; este é o meu fardo.

O ponto tornou a ser espera. O ônibus chegou, propositadamente tomei um acento distante da menina e sua criatura, tão distante que os meus olhos não tornariam a encontrá-la, olhos que novamente percebiam passivamente o mundo a sua volta, toda minha volta. O restante, até aqui, foi apenas uma passagem limitada de instantes.

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domingo, 29 de março de 2009

Amém

Sente dor minha irmã? Aleluia Jeová! No nome de Jesus te repreendo Satanás! – Amém Senhô – Na calçada Abraão, Isaac, e Jacó, brincadeira entre os profetas, bolinhas de gude, e no milagre da multiplicação Pedro soca o dedo no olho de outro discípulo, mas Jesus, criança no colo da mãe, não viu o choro do irmãozinho.

Na santa paz de Deus as coisas se encerram com um amém – engole seco, o moleque, sacudido no seio gordo – Sente dor minha irmã?

Amém Senhô.

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segunda-feira, 16 de março de 2009

História de uma menina ou Simples fim inesperado

Acharam-na jogada num longo barranco-atlântico nos matos do Formiga, bairro das quebradas nas novas periferias de São Paulo. Precisaram de um bombeiro bem treinado para fazer o resgate (inútil) do acabado. Quando esquivo da população frenética pude ver a pele deteriorada, só não vi os olhos loiros na testa cobrindo o rosto – amanhã encontraremos a família.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Love story

Era uma vez você, era uma vez eu. Fodeu.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Bandeja, parte 1

João Batista acorda todos os dias antes das cinco horas da manhã enquanto total silêncio ainda vela o sono de sua esposa. Ele mesmo prepara o café amargo e forte que toma sem leite acompanhado de pão untado de margarina. João Batista gosta de fritar pão na frigideira. Apenas se troca. Escova os dentes. Come. Quando enfim sai à rua ainda é noite.

O ponto frio. Espera. O ônibus. João Batista é pontual e permanece imóvel avesso a pressa de chegar ao trabalho.

Ali João. Parado como se nascido da terra. Ainda é madrugada... O ônibus chega.

João Batista espera os cinco sempre indiferentes companheiros entrarem no veículo. Em fila, João é o último. Sentado sempre no mesmo lugar, sozinho à frente do cobrador, tomba a cabeça até encostar a testa no vidro e fica olhando o horizonte aos poucos menos sombrio.

João Batista observa fixo. Entorta os olhos para ver melhor o céu, se retorce no assento ao chacoalhar de freadas e arrancadas bruscas – o motorista de hoje deve ser inexperiente – não havia reparado, João Batista olha para traz – o cobrador ainda é o mesmo. Não questiona sobre o destino do antigo motorista e nem reclama, pois não costumava dormir nas viagens.

Ele Perseguia o absurdo de contemplar o momento exato em que o sol viria converter a noite à sua vontade. João Batista desce do ônibus. Anda duas quadras. Olha para o relógio. São seis horas. Já é dia. João se quer notou, a luz da manhã é solitária, ninguém vê o rosto do sol.

João chega.

Trancado em uma guarita o trabalho faz o tempo de João passar feito marteladas. Meio-dia. Fome.

– Batista... Batista... Batista! A marmita.
– Opa, Maria, deixa fechado que é pra num seca a carne.

Aquelas curtas palavras. O primeiro diálogo sincero de João durante o dia. Recomendação feita, Maria caminha de volta aos edifícios.

...Maria lava,
...Passa,
Cozinha...
...Maria lava,
...Passa,
Cozinha...

Que bem fizera ele à moça grávida?
Volta Maria com a bandeja requentada e com seu sorriso elástico branco capaz de sepultar a morte.

...Guarita,
...Trabalho,
...Tempo,
Indiferença...
...Guarita,
...Trabalho,
...Tempo,
Indiferença...

Fim de expediente. O ônibus. João senta. Repete o mesmo ritual sagrado. João vê a noite. Em casa a mulher o beija. Ela o suporta. Ele suporta o mundo. João dorme. Não há sonho, o sono tina. Café forte. Pão. Viagem. Maria. O dia-noite. A volta.

...num incerto. Revelou- se a João oculta vida.

João era preciso no fazer a barba, atividade que executava dia sim, dia não. O deslizar cirúrgico da navalha sobre o rosto, o leve chiado dos pelos da cara, cada gesto repetido com a precisão de um artesão, nem uma viva sombra restava ao fim do feito, era assim desde a primeira vez, aos dezessete anos.

no quarto
[...pí-pí-pí-pí-pí-pí]
no quarto
[...pí-pí-pí-pí-pí-pí]
no quarto
[...pí-pí-pí-pí-pí-pí]

– Ah! João, o despertador. Você nunca usa esta porqueira.
Nunca usa. Nunca. Nunca. Pra quê João? ...pra quê?

– Nunca esqueci de desligar. Nunca esqueci. Nunca ...nunca!

A esposa soca o braço no rádio-relógio...

[“Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do seu ventre...”]

Outro soco.

[...]

– Mulher! Você, bem eu. Ahhh, mulher... Acho que... acho que me cortei.

O sangue quente no alto do pescoço o conteve, também não haveria motivo de desbaratar confuso discurso pedindo desculpas. No quarto, jazia novamente silêncio.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

REVEILLON

Ele – bebe alguma coisa?
Ela – ...
Ele – não bebe você, bebo eu. Como vai ser?
Ela – se quiser eu gosto de ficar assim.
Ele – vire.
Ela – como?
Ele – isso.

Ela – olha. Eu prefiro... e depois, você.
Ele – o que quer agora?
Ela – não é bonito ...as estrelas.
Ele – não são estrelas.
Ela – ...
Ele – e então?
Ela – me leva lá pra cima?
Ele – podemos?
Ela – tá bom, mas quero ouvir o barulho que elas fazem quando estão caindo.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Conto Natalino II

Papai Noel este ano não veio. João falou que é por causa do petróleo, retrucou dizendo que não ia adiantar. – “O natal é uma tradição alimentada pelo capitalismo”. Eu não sei o que é isso, mas pelo nome deve ter alguma coisa de diabo nesse meio. – Mas o que tem o capeta? Mamãe, muito brava, bateu em minha boca. – ...é o Papai Noel seu burro. – Natal é coisa séria, vê o que fala pro seu irmão, brincando com as coisas de Cristo. – Eu, mamãe, uma vez vi Jesus na televisão.

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